RESUMO
Os mercados financeiros estão sendo fustigados pelo fluxo e refluxo de
tensões comerciais e pelas crescentes preocupações com as perspectivas
econômicas globais. A desaceleração da atividade econômica e a exacerbação
dos riscos de baixa provocaram uma transição para políticas monetárias mais
brandas no mundo inteiro, que têm sido acompanhadas de quedas acentuadas na
rentabilidade dos mercados.
Como resultado, o montante de obrigações com rendimentos negativos
subiu para cerca de US$ 15 trilhões.
Os investidores agora esperam que as taxas de juros continuem muito baixas
por mais tempo do que o previsto no início do ano. O Capítulo 1 discute
como a busca de rendimento por parte dos investidores distendeu os preços
dos ativos em demasia em alguns mercados e promoveu outra flexibilização
das condições financeiras desde a edição de abril de 2019 do Global Financial Stability Report (GFSR), o relatório do FMI sobre
a estabilidade financeira mundial.
A política monetária acomodatícia apoia a economia a curto prazo, mas as
condições financeiras brandas incentivam a tomada de risco e estão
estimulando um novo acúmulo de vulnerabilidades em alguns setores e países.
O Capítulo 2 mostra que as vulnerabilidades do setor empresarial já estão
elevadas em várias economias de importância sistêmica como resultado do
aumento do endividamento e da redução da capacidade de servir as dívidas.
Em um cenário de desaceleração econômica substancial, que se compara à
metade da gravidade da crise financeira global, a dívida empresarial em
risco (valores devidos por empresas sem receitas suficientes para pagar as
suas despesas de juros) poderia subir para US$ 19 trilhões – ou quase 40%
da dívida corporativa total das maiores economias e acima dos níveis da
crise.
As taxas de juros muito baixas estão levando os investidores a buscar
aplicações mais rentáveis e recorrer a ativos mais arriscados e ilíquidos
para gerar os retornos desejados, como discutido no Capítulo 3. As
vulnerabilidades das instituições financeiras não bancárias estão elevadas
em 80% das economias com setores financeiros de importância sistêmica (por
PIB). Essa parcela é similar à observada no auge da crise financeira
global. As vulnerabilidades também continuam acentuadas no setor de
seguros. A busca de rendimento por parte dos investidores institucionais
pode criar exposições que amplifiquem choques em períodos de estresse no
mercado: as semelhanças entre as carteiras dos fundos de investimento
poderiam intensificar uma onda de venda no mercado, os investimentos
ilíquidos dos fundos de pensão poderiam restringir o seu papel na
estabilização de mercados, como ocorreu no passado, e os investimentos
externos de seguradoras de vida poderiam facilitar o contágio a outros
mercados.
Além disso, as baixas taxas de juros oferecidas nas economias avançadas
estimularam os fluxos de capitais para os mercados emergentes (ver o
Capítulo 4). Esses influxos de capital têm respaldado a ampliação do
endividamento:
a dívida externa mediana nas economias de mercado emergente aumentou
para 160% das exportações em comparação com 100% em 2008.
Em alguns países, esse índice ultrapassou 300%. Caso ocorra um aperto
pronunciado nas condições financeiras globais, o endividamento adicional
poderia acentuar os riscos de reescalonamento e sustentabilidade das
dívidas. Por exemplo, algumas empresas estatais com endividamento excessivo
poderiam encontrar mais dificuldades para manter o acesso ao mercado e
honrar os seus passivos sem apoio soberano. A maior dependência de
captações externas em algumas economias de mercado de fronteira também
poderia aumentar o risco de sobre-endividamento futuro.
As regulamentações adotadas na esteira da crise financeira global
aumentaram a resiliência geral do setor bancário, mas ainda há bolsões de
instituições mais frágeis. Os rendimentos negativos e o achatamento das
curvas de juros – em combinação com projeções mais modestas de crescimento
– têm reduzido as expectativas de rentabilidade dos bancos, e o valor de
mercado de alguns bancos caiu para níveis reduzidos. Os bancos também estão
expostos a setores com alta vulnerabilidade nas atividades de crédito,
deixando-os suscetíveis a possíveis perdas. Na China, as autoridades foram
forçadas a intervir em três bancos regionais. Em bancos fora dos EUA, a
fragilidade do financiamento em dólares – que foi uma causa significativa
de estresse durante a crise financeira global – continua a gerar
vulnerabilidade em muitas economias, como discutido no Capítulo 5. A
fragilidade do financiamento em dólares poderia amplificar o impacto de um
aperto nas condições de financiamento e afetar países que fazem captações
em dólares junto a bancos fora dos EUA.
A importância dos princípios ambientais, sociais e de governança (ASG) está
aumentando para devedores e investidores. Os fatores ASG poderiam ter um
impacto relevante no desempenho empresarial e criar riscos de estabilidade
financeira, sobretudo em decorrência de perdas relacionadas com o clima. As
autoridades têm um papel importante no desenvolvimento de normas para o
investimento baseado nos princípios ASG. Esse papel, juntamente com a
necessidade de eliminar as lacunas dos dados e incentivar a divulgação mais
uniforme de informações, é discutido no Capítulo 6.
No contexto de condições financeiras brandas, valorações distendidas em
alguns mercados e altos níveis de vulnerabilidade, os riscos de médio prazo
para o crescimento global e a estabilidade financeira continuam a
apresentar um viés firme de baixa. As políticas macroeconômicas e macroprudenciais devem ser adaptadas
às circunstâncias específicas de cada economia. Nos países onde a atividade
econômica continua robusta, mas as vulnerabilidades são altas ou estão em
elevação, com condições financeiras ainda relaxadas, as autoridades
econômicas devem apertar as políticas macroprudenciais com urgência,
inclusive as ferramentas macroprudenciais de base ampla (como a reserva de
capital contracíclica). Nas economias em que as políticas macroeconômicas
estão sendo flexibilizadas em reação à deterioração das perspectivas, mas
com vulnerabilidades em determinados setores que continuam a causar
preocupação, as autoridades econômicas podem ser forçadas a utilizar uma
abordagem mais direcionada para lidar com bolsões específicos de
vulnerabilidade. Para as economias que enfrentam uma desaceleração
significativa, o enfoque deve concentrar-se em políticas mais
acomodatícias, levando em consideração o espaço de política disponível.
As autoridades devem tomar medidas urgentes para resolver as
vulnerabilidades financeiras que poderiam exacerbar a próxima crise
econômica:
Elevação do endividamento empresarial:
Deve-se manter a supervisão rigorosa das práticas bancárias de
avaliação de risco de crédito e financiamento. É necessário empreender
esforços para ampliar a divulgação de informações e a transparência em
mercados financeiros não bancários para permitir uma avaliação mais
abrangente dos riscos. Nas economias em que o endividamento total do
setor empresarial seja considerado sistemicamente elevado, as
autoridades podem considerar o desenvolvimento de ferramentas
prudenciais para empresas altamente alavancadas, além das ferramentas
prudenciais para setores específicos. A atenuação do viés dos sistemas
tributários que favorece o financiamento com capitais de terceiros em
detrimento de capitais próprios também ajudaria a reduzir os incentivos
para o endividamento excessivo.
Aumento da parcela de títulos mais arriscados e ilíquidos nas
carteiras de investidores institucionais:
Deve‑se reforçar a supervisão de entidades financeiras não bancárias.
As vulnerabilidades dos investidores institucionais podem ser sanadas
com os devidos incentivos (por exemplo, para reduzir a oferta de
produtos com retorno garantido), normas de solvência e liquidez mínimas
e maior divulgação de informações.
Maior dependência de captações externas em economias de mercado
emergente e de fronteira:
As economias de mercado emergente e de fronteira endividadas devem
mitigar os riscos de sustentabilidade da dívida com práticas prudentes
e estrutura sólida de gestão.
A coordenação global de políticas continua a ser essencial. É necessário
resolver as tensões comerciais, como discutido na edição de abril de 2019
do World Economic Outlook. As autoridades econômicas também devem
concluir e implementar plenamente a agenda de reforma regulatória global
para que não haja retrocessos da regulação. Também é necessário dar
continuidade à coordenação e colaboração internacional para assegurar uma
transição tranquila da LIBOR para novas taxas de referência em uma ampla
variedade de contratos financeiros no mundo inteiro até o fim de 2021.