Um forte recuo dos preços dos imóveis pode ter um efeito negativo sobre o desempenho macroeconômico e a estabilidade financeira, como se observou durante a crise financeira mundial de 2008 e outros episódios históricos. Estes vínculos macrofinanceiros resultam das muitas funções que os imóveis assumem para as famílias, as pequenas empresas e os intermediários financeiros: bem de consumo, investimento de longo prazo, reserva de riqueza e garantia de empréstimos, entre outras. Nesse contexto, o rápido aumento dos preços dos imóveis verificado em muitos países nos últimos anos gerou alguma preocupação com a possibilidade de um declínio e suas consequências.
Nesse cenário, o presente capítulo examina e quantifica os preços dos imóveis em risco – uma medida dos riscos de baixa para o crescimento futuro dos preços dos imóveis – numa amostra de 32 economias avançadas e de mercados emergentes, bem como em cidades importantes. O capítulo conclui que o menor dinamismo dos preços dos imóveis, a supervalorização, o crescimento excessivo do crédito e o aperto das condições financeiras apontam para uma intensificação dos riscos para os preços dos imóveis nos próximos três anos. A medida dos preços dos imóveis em risco ajuda a estimar os riscos de baixa para o crescimento do PIB acima e além de outras medidas mais simples de desequilíbrios dos preços dos imóveis e, por isso, reforça os modelos de alerta antecipado de crises financeiras. As estimativas mostram que houve uma rotação dos riscos de baixa dos preços dos imóveis após a crise financeira mundial: os países com maior risco no final de 2007 enfrentam hoje riscos menores, mas em muitas economias avançadas e de mercados emergentes os preços dos imóveis ainda estão sujeitos a riscos.
Este capítulo analisa também a relação entre as políticas e os preços dos imóveis em risco. Embora os níveis dos preços dos imóveis não devam ser considerados como uma meta direta das políticas monetária ou macroprudencial, ou das medidas de gestão dos fluxos de capital, a ligação entre as medidas de política econômica e os riscos de baixa para os preços dos imóveis pode ajudar a elucidar como tais medidas afetam a vulnerabilidade do setor imobiliário e a estabilidade financeira. Os resultados indicam que um aperto das políticas macroprudenciais está associado a uma redução dos riscos de baixa para os preços dos imóveis. Isso ocorre especialmente no caso das políticas formuladas para reforçar a resiliência dos tomadores, como a aplicação de limites máximos ao LVT (valor do financiamento/valor do imóvel) ou à relação serviço da dívida/renda. A política monetária também pode influenciar os riscos de baixa por meio de sua relação com as condições financeiras, mas o capítulo conclui que, além disso, uma flexibilização inesperada da taxa de juro de política monetária está vinculada a riscos de baixa menores para os preços dos imóveis, porém unicamente nas economias avançadas e a curto prazo. Assim, conclui-se que, no cômputo geral, políticas macroprudenciais oportunas e bem direcionadas são mais eficazes que a política monetária para reduzir os riscos de baixa. A relação com as medidas de gestão dos fluxos de capital é mais sutil, e alguns resultados sugerem a existência de uma associação temporária entre o aperto dessas medidas e a redução dos riscos de baixa nas economias avançadas.
O que as autoridades econômicas podem fazer com essas informações? Além de construir margens de proteção para os bancos e assegurar que as famílias não se superendividem, as autoridades responsáveis pela estabilidade financeira podem utilizar as estimativas dos preços dos imóveis em risco para complementar outros indicadores de supervisão de vulnerabilidades do mercado imobiliário e orientar as medidas de política macroprudencial destinadas a construir uma margem de proteção e reduzir as vulnerabilidades. Os riscos de baixa dos preços dos imóveis podem também conter informações importantes para as autoridades monetárias no momento de formar uma opinião sobre os riscos de baixa para as perspectivas económicas e de inflação.